A comunidade chinesa no Brasil já existe há mais de 100 anos, contudo, o relato que ora faço baseia-se naquilo que pude observar durante meu encontro com a arte a partir dos anos 1970. Parece-me que o advento "Kung Fu" originou-se a partir da vinda de alguns chineses mais ligados a esta arte.
Meu primeiro contato foi com o Mestre brasileiro Marco A.C. Natali, com quem treinei na Rua Augusta em S. Paulo e também na cidade de Sorocaba. Ao que parece, ele não foi discípulo de nenhum dos mestres tidos como introdutores do Kung Fu no Brasil.
Nessa época conheci o Mestre Moy Gin Ying, que treinava um grupo de pessoas em Tai Chi Chuan na Rua Teodoro Sampaio; logo em seguida conheci o Mestre Chang Kow Way na Rua Vitorino Carmilo; também conheci o Mestre Chiu Ping Lok, que ensinava em Santo André-SP.
Em 1975, na academia do M. Natali, recebi a visita do Mestre Lee Wing Kay. Estes, segundo relatos, foram os primeiros a ensinar a arte em São Paulo, espalhando-a posteriormente a outros estados. Contudo, sou testemunha da existência de outros chineses conhecedores da arte.
A Reflexão sobre a Maestria
Digo conhecedores porque não acredito que, na época, algum chinês tenha imigrado especificamente como mestre. Ninguém contrataria um mestre de Kung Fu, pois quase ninguém sabia do que se tratava. Observei que praticavam em seus quintais e locais de trabalho; os brasileiros os viram, interessaram-se, e estes chineses, vendo o interesse, tornaram-se mestres.
Lamentavelmente, não há um órgão oficial que regule essa maestria, a não ser pelo conjunto da obra: mestres sérios, dignos e exemplares cujos trabalhos foram demonstrados durante anos. Mestres que reconhecem outros praticantes que já deram aulas por um longo tempo, constituíram família, escreveram livros e adquiriram um alto saber técnico.
Em 1975, amigos como Lap Wah, Marcio Zaqueu, Aparecido de Souza Soares, Paulo Lee e Ivan, de Ribeirão Preto, apresentavam um Kung Fu vindo de um mestre que lá residia, chamado Chan. Inclusive, Marcio Zaqueu foi criado por ele, literalmente. Há também relatos do Mestre Sui no sul do país, do Mestre Nakao em Araraquara, e do Mestre Paulo Silva em São Paulo.
Todos vieram de fontes diferentes, contudo os registros atuais citam apenas alguns mestres chineses, não citam todos, nem o grande esforço dos brasileiros pioneiros nessa prática. As academias da época não podiam usar o nome "Marcial", então registramos como "Academia de Esportes de Luta" na Federação de Pugilismo.
Os discípulos destes mestres foram espalhando a técnica — eu sou um deles. Muitos foram influenciados por professores não citados como "introdutores". Um exemplo é o Mestre Cido, que fala fluente chinês e foi reconhecido na China como "Irmão". Muitos não citam seu nome talvez por vergonha de citar um mestre brasileiro.
No Brasil, existem federações e ligas, mas nunca se juntam, o que seria uma potência. Alguns não reconhecem sua própria identidade e aceitam imposições só por serem orientais, tornando-se bonecos nas mãos de poucos espertalhões. Acredito que quando os dirigentes derem mais atenção à parte mental e filosófica, teremos um Kung Fu de mais valor no Brasil.
"A prática do Kung Fu é uma excelente ferramenta de lapidação do ser humano, contudo, se não for ensinado em sua totalidade — física, mental, filosófica e espiritual — será capenga, não levará a lugar nenhum."
Provérbio Chinês
"Quem não sabe o que procura,
não entende o que encontra."